domingo, 13 de outubro de 2024

Coisas que eu vi

 

Eu vi um menino passar correndo,
Como quem houvesse a necessidade
De chegar depressa em algum lugar.
O menino desviava de pessoas e coisas,
E tinha uma energia interminável,
Corria velozmente rumo ao futuro,
Como se tivesse deixado os seus brinquedos por lá.
E com toda essa correria,
Sem ouvir e sem dar satisfação a ninguém,
A sua vida, aquele menino seguiu vivendo.

Esse menino se chamava TEMPO.

(A infância é desbravadora, tem a pressa de conhecer o futuro, é inconstante como o vento e tem uma alma indomável como o tempo.)

Eu vi uma mulher que também corria sem distração,
Ela desejava ansiosamente vencer o tempo,
Andava pela vida tão obstinada e veloz
Que de querer voar, dava a todos a impressão.
Queria ultrapassar seus próprios limites,
Seus olhos estavam voltados para o futuro,
Nele estava também a sua atenção.
Em suas mãos, uma pasta com vários papéis,
Rascunhos de projetos e de sonhos em construção.

E essa mulher se chamava PRESSA.

(A juventude é movida pela força do imediatismo e põe no guidão de suas metas e conquistas uma pressa desenfreada.)

Eu vi passar também um homem bem alinhado,
Não aparentava estar correndo em busca de alguma coisa,
Seguia com equilíbrio e tranquilidade
E tinha em seu caminhar certo ritmo e precisão,
Às vezes reduzia a velocidade de seus passos,
Como quem sabe que o futuro é agora,
E a felicidade pode estar em qualquer lugar.

Esse homem se chamava RAZÃO.

(Chega uma fase na vida do homem em que ele começa a compreender a importância das coisas em sua vida. Ele então começa a agir e tomar suas decisões baseadas na razão.)

Eu vi ainda um ancião que caminhava lentamente,
Tinha cabelos brancos e olhar calmo,
Ele não pretendia alcançar o TEMPO,
Nem entrar em disputa com a PRESSA,
Ele seguia seu caminho a passos tranquilos,
E olhava no rosto das pessoas com atenção,
Cumprimentava a todos, gentilmente.

E esse ancião se chamava MATURIDADE.

(A maturidade é o conhecimento da razão e o despertar da consciência. Para alguns a maturidade chega mais cedo, para outros, ela demora pra chegar. E para uma grande parcela de pessoas a maturidade talvez nunca chegue.)

Depois de ver passar TEMPO, PRESSA, RAZÃO e MATURIDADE,
Eu ouvi o canto harmônico de um pássaro
Que estava pousado no galho de uma cerejeira.
Ele assobiava alegremente uma linda melodia,
Parecia estar agradecido e muito satisfeito
Com a oportunidade de viver que recebia.
Não tinha pressa, nem projetos e nem cansaço,
Não se importava com o passar das horas do seu dia,
Não desejava voar para alcançar o futuro,
Nem quebrar recorde ou vencer alguma barreira.

E esse pássaro se chamava SERENIDADE.

(A SERENIDADE é um estágio elevado de alma e consciência. É quando o homem já viveu várias experiências de vida e já não corre mais contra o TEMPO. Já não faz mais as suas escolhas e nem toma as suas decisões com base na PRESSA. Já aprendeu a usar a RAZÃO para discernir. Já descobriu que a vida não é um campo de batalhas, e que o seu próximo não é um concorrente seu. O único concorrente que o homem tem é ele mesmo, quando disputa uma guerra contra suas dúvidas e seus próprios medos.
O homem encontra a serenidade quando descobre que o futuro é uma incerteza, e que a única coisa que realmente conta é o seu momento presente. E esse presente é o que a vida apresenta diante dele espontaneamente. É no instante em que o homem se dá conta disso que ele se torna o dono de seu destino, guiando com discernimento o seu tempo, a sua velocidade e a sua razão, alcançando assim, a sua maturidade e serenidade.

Rozilda Euzebio Costa

Arte / Ilustração By Rozilda Euzebio Costa

Existencialismo






















O meu eu humano enquanto sendo árvore,
Se confunde na composição do ser uma planta,
E penso com a natureza de uma árvore.

E enquanto árvore,
Alargo as minhas ramificações,
Tentando ser gigante,
Para alcançar o céu.

Busco me alargar,
Me espalhar,
Para abrigar em mim,
Centenas de passarinhos,
Dezenas de ninhos,
Vida.

O meu eu humano enquanto sendo uma árvore, chora,
E derrama rios frágeis de seivas,
que através do meu tronco escorrem,
Como as lágrimas de um humano desesperado.
Sinto medo do futuro incerto e desconhecido,
Sinto medo do fim,
Como o medo de um menino
Em perder o seu brinquedo de estimação.

A minha existência humana enquanto árvore,
Espera da Terra,
A força de continuar existindo,
Nesta selva de mentes inconsequentes.

Já, a minha existência árvore enquanto humano,
Se perde na dor e no desespero,
Nos pesares,
Pela destruição do todo.
No abandono.

Respiro ares poluídos,
Em uma abóboda transfigurada,
Numa cidade atormentada,
Que vive de batalhas sangrentas,
Onde homens se atacam,
Se ferem e se maltratam
Por conquistas insanas.

O meu eu árvore enquanto humano,
Agarra-se ao fio de uma existência trêmula,
Fragilizada,
Descompassada,
Sendo levada pelos ritmos,
De uma incoerência sem noção.

E para não me perder no vão,
De um existencialismo sem freios,
Sem prazer e sem sabor,
Tento extrair do meu eu de árvore,
A minha essência raiz.

A minha humanidade de árvore,
Já não consegue distinguir
O viver do sobreviver.
Pela manhã vê um sol que chega,
E vê um sol que parte ao entardecer.

Pela manhã vê uma luz no fim do túnel,
Mas a noite essa luz se dissolve
Em meio a inquietudes desgastantes.

E numa ânsia de respostas de tantos porquês,
O meu eu árvore enquanto humano adormece,
Tronco e raiz,
Sem nada compreender.

E a vida continua,
Depois de um adormecer outro despertar.
Árvore ou humano,
Sou vida que compõe esta grande obra.

Terra. 

Rozilda Euzebio Costa



Posse na Academia de Letras, Ciências e Artes dos Militares do Tocantins - ALCAM / Parte II



Somos exatamente o que acreditamos e podemos ser e estar de acordo o nosso querer. Durante nossa vida passamos por aprovações e escolhas, momentos em dizer Sim! ou Não! De seguir em frente, ou permanecer inerte.

Olhando para trás vejo o quanto caminhei para chegar até aqui, tive que atravessar tormentas e caminhos espinhosos, dores que superei silenciosamente. Mas também tive caminhos floridos, afáveis, musicalizados e acima de tudo poéticos. Me levando a portas que se abriram e permanecem abertas, sem chave, nem cadeados para adentrá-las.

Hoje (30/09/2024), tive a grata honra em ser empossado na Academia de Letras, Ciências e Artes do Militares do Tocantins - ALCAM, ocupando a cadeira de número 15, tendo como Patrono o Poeta e conterrâneo João Cabral de Melo Neto. Um novo caminho que estarei percorrendo com muita alegria e satisfação.

Como aceitara ir
no meu destino de mar,
preferi essa estrada,
para lá chegar,
que dizem da ribeira
e à costa vai dar,
que deste mar de cinza
vai a um mar de mar;
preferi essa estrada
de muito dobrar,
estrada bem segura
que não tem errar
pois é a que toda a gente
costuma tomar
(na gente que regressa
sente-se cheiro de mar).

João Cabral de Melo Neto

Posse na Academia de Letras, Ciências e Artes dos Militares do Tocantins - ALCAM

 

Evento da Cerimônia da minha posse na Academia de Letras, Ciências e Artes dos Militares do Tocantins - ALCAM. Hoje me tornei um imortal nesse seleto grupo, ocupando a cadeira de número 15, tendo como Patrono, o escritor e poeta João Cabral de Melo Neto.

Gratidão!

“Escrever é estar no extremo de si mesmo.”
(João Cabral de Melo Neto)







sábado, 12 de outubro de 2024

Poesia da dura realidade: Cenários Sociais




Diante do vão da desigualdade e da indiferença social,
Existem comunidades inteiras de egos elevados,
Representando modéstias falsas e orgulhos exacerbados.
Num cenário absurdo, frio de sentimento e brutal.

Existem dois mundos desiguais que se cruzam sem comunhão,
Neles, multidões nunca se acenam e quase nunca se tocam,
Estão todos dentro de um panorama de vida real,
Vivendo uma existência sem amor e sem emoção.

Diante de uma grande aglomeração de vidas humanas,
Existem numerosos contrastes bastante explícitos,
De um lado a abundância, o desperdício e a esperteza desonesta,
E do outro, a doença, a fome, a nudez e vidas insanas.

Nas personagens reais que atuam nas entrelinhas da vida,
Existe uma fome que grita eloquente nos pobres desvalidos,
Mas ninguém ouve esse grito! Estão todos surdos!
Estão todos mergulhados em seus propósitos, em sua própria lida.

Existem aqueles que não sabem mais o que é o viver,
Eles vegetam no campo árido de seu próprio existir,
Sem nenhuma consciência real, sem nada mais desejar para si,
Da vida que levam, do ar que respiram, vivem sem nada compreender.

Existe ainda uma grande multidão que quer fazer o bem,
Plena de conhecimento, sabe que, um abraço aquece e conforta,
Mas sua resistência ainda é muito maior do que o seu amor,
E o medo de ser afetada pelos sofrimentos do outro, a detém.

Existem tantas sociedades no consumismo inconsciente,
Quanto existe em seu meio aqueles que nada possuem.
Estão todos juntos, em um mesmo barco, em um mesmo caminho,
Vivendo de uma mesma vida de altos e baixos, inconsistente.

Diante do espelho exposto na face do irmão,
Ninguém consegue ver a si mesmo, nem se reconhecer como família,
E todos vivem numa crença preenchida por delírios,
Numa existência cega, sem sentimentos e sem o calor do coração.

Rozilda Euzebio Costa

Arte / Ilustração By Rozilda Euzebio Costa

Poesia para decifrar: Metáforas





Perecem as mariposas de asas esvoaçantes
Procurando a luz profunda do olho do tempo
Seduzidas pelos reflexos exorbitantes
Das ofertas da fama que as aprisionam
Ao lhes atrair com promessas mirabolantes

Cigarras com anúncios em cantos agudos
Eclodindo sem piedade no ouvido do mundo
Que se protege com seus frágeis escudos
Fechando as abas de suas grandes orelhas
Seu corpo já está muito abatido e moribundo

E as árvores humanas imóveis e silenciosas
Vivenciam em suas raízes os seus segredos
Mesmo na fraqueza se mostram graciosas
Se escondem debaixo da saia da Natureza
A se proteger de um possível degredo


Rozilda Euzebio Costa
Arte / Ilustração: By Rozilda Euzebio Costa

Poesia do desabafo: Rasguei o véu da minha paciência

 


Rasguei o véu da minha paciência,
estraçalhei as vestes da minha tolerância,
que agora está nua diante das injustiças,
e tenho gritado a minha sufocada opinião
esbravejei contra os ventos tempestuosos,
que faz sofrer a minha existência.


Não me venham falar de salvação,
quem nada produz senão, falação,
juízes insensatos da vida alheia,
para longe, os santinhos que escondem seus pecados,
por traz de tantas máscaras de uma falsa humildade,
os que se veem santos através dos espelhos da ilusão.





Há tantos que passam a vida a mendigar o pão,
comendo as ofertas frias da maldade dos soberbos,
dos estranhos e da própria consanguinidade,
apanhando míseras migalhas espalhadas pelo chão.
Que desçam ao pó os muros da indiferença!
Que voltem a agir as mãos que doam sem nenhuma intenção.

Que a justiça divina encha os celeiros vazios,
das pobres massas viventes do mundo,
que tem consigo tanta fome de amor e de afeição!
Pelas ruas perambulam as vítimas da incompreensão,
com seus pés cansados e tanta fome na boca e no coração,
de olhos tristes, fogem dos mundos sombrios.

Rozilda Euzebio Costa

Arte / Ilustração: By Rozilda Euzebio Costa

Coisas que eu vi

  Eu vi um menino passar correndo, Como quem houvesse a necessidade De chegar depressa em algum lugar. O menino desviava de pessoas e coisas...